Sobre a dimensão da Confiança em Valor Humano

As crises, neste mundo globalizado, têm quase tudo a ver com as falhas críticas que se verificam na Confiança entre as Pessoas, Processos e Sistemas. A nossa relação com Instituições, Governos, Empresas e Organizações tem essencialmente uma dimensão de Confiança. Para complicar (simplificar em abstrato), o Homem construiu um sistema de valor monetário que não representa o Valor Humano.

A Confiança como a vida tem um tempo associado, não é eterna. Possui uma dinâmica. Quanto maior o intervalo de tempo e o grau associado à relação de Confiança maior é a sua dimensão.

Confiança - Camões

Quando uma Pessoa tem Valor torna-se mais fácil confiarmos nos seus propósitos porque existe um padrão de Valor, uma previsibilidade de comportamentos e atitudes, um modo de pensamento que nos permite acreditar que Valor e Confiança possuem um elo forte entre eles.

Qualquer que seja a confiança em algo ou alguém, no momento em que é estabelecida essa relação ela tem uma projeção no futuro. Basta um encurtamento nessa projeção estabelecida para que a relação de confiança seja abalada.

Toda a relação de Confiança possuiu um grau, uma classificação, uma valorização que é assumida naturalmente pelas partes. Esta pode ser mais ou menos implícita ou explícita dependendo do modelo de relação em causa. Os elos virtuais que se estabelecem estão associados a padrões mentais, ao conhecimento, às emoções e à espiritualidade. Como podemos vislumbrar esses elos acabarão formando uma rede com maior ou menor resistência às vicissitudes da vida, mas que poderão ser completamente desfeitos pela traição nos propósitos. Esta é a razão pela qual a ética associada a um relacionamento é tão importante, para não dizer fundamental.

Quanto maior o grau de Confiança que depositamos mais e maiores são as características de Valor associadas ao relacionamento.

A filósofa Onora O’Neill define confiança de forma peculiar: “O conceito fundamental não é confiança, mas confiabilidade. Acredito que temos um problema cultural em abordar a questão da confiabilidade. Isso parece-me um erro, porque a única confiança que vale a pena ter é a confiança bem depositada — e confiança bem depositada é confiança depositada numa pessoa ou instituição confiáveis. Por isso a confiabilidade é a categoria principal. Entre parêntesis: pode haver alguma dificuldade em traduzir “trustworthiness” ou “trustworthy” para línguas românicas — o mais importante é que se concentre na característica da pessoa, ou instituição, em quem é depositada confiança, em vez de se concentrar na atitude subjectiva da pessoa que responde a isso.

Basicamente, o meu pensamento é que precisamos de nos concentrar na questão da confiabilidade e menos na questão da confiança.” (https://acervo.publico.pt/sociedade/noticia/o-conceito-fundamental-nao-e-a-confianca-mas-a-confiabilidade-1725088)

“Política e marketing, onde a questão da reputação de um negócio é fulcral, mantêm a indústria das sondagens e de estudos de mercado muito ocupada. As pessoas perguntam se têm confiança em X ou Y. Mas seria muito mais útil saber quais são confiáveis e quais não são.” – Onora O’Neill

Um dos aspetos que Onora O’Neill sublinha é que devemos concretizar a questão generalista de “confiar” em alguém e perguntar “para fazer o quê?” — dá o exemplo da pergunta “Confia no professor do seu filho?” à qual se deve responder “Para fazer o quê?”’ – Joana Gorjão Henriques – na entrevista que realizou a Onora O’Neill e publicou no Jornal Público em 05/03/2016.

“A confiança é o elo de aço que consolida todas as relações significativas, nas quais as pessoas se presenteiam com as melhores amizades, amores ou relacionamentos, sempre partindo da integridade e da coerência. Poucas dimensões psicológicas são tão vitais, tão nutritivas ao mesmo tempo complexas quanto nos permitirmos confiar em alguém, quanto depositar parte de nós mesmos em outra pessoa.” (https://amenteemaravilhosa.com.br/confianca-cola-da-vida/)

Seria muito interessante, neste mundo globalizado, poder avaliar o nível ou o grau de confiança (com metodologias confiáveis) que as Pessoas depositam noutras Pessoas, nas Instituições, nos Governos, nas Empresas e nas Organizações. Tenho muitas dúvidas de quem ganharia, se a Confiança ou a Desconfiança! Este(s) resultado(s) seria(m) da maior importância para uma melhoria significativa nos relacionamentos que temos de realizar ao longo da vida, nas mais variadas circunstâncias. Mas infelizmente quem tem poder de decisão tem outras prioridades e outras opções menos abrangentes. Deste modo, caminhamos assim com maior probabilidade para uma maior Desconfiança entre as partes envolvidas.

Os níveis de satisfação de Consumidores, Clientes, Utentes de um Serviço, etc. são importantes conhecer, mas representam apenas uma pequena dimensão do fenómeno da Confiança. O mesmo se passa com as sondagens de opinião ou os estudos de mercado. Falta a capacidade de integrar todos esses Estudos de forma coerente para produzir o Valor da Confiança no relacionamento Humano na sua multi dimensão Pessoal, Profissional, Política e Institucional.

“É a confiança mútua, mais que o interesse mútuo, o que mantém os grupos humanos unidos.” – H. L. Mencken.

“Você deve confiar e acreditar nas pessoas, caso contrário a vida se torna impossível.” – Anton Chekhov.

Esta é, a meu ver, a dimensão que o Homem ainda não atribui um elevado grau de importância. Fosse esse o caso e o Valor Humano ganharia enormemente.

Deixo-vos com uma questão importante: “Pode a Biosfera terrestre ter confiança no Homem?”.

Alfredo Sá Almeida                                                                                  12 de Outubro de 2018