Você permitirá que o(a) classifiquem como um inútil?

Tenho de concordar com Yuval Harari quando afirma que uma nova e imensa classe de Pessoas surgirá, a dos INÚTEIS, se o Homem continuar a desenvolver as tecnologias com a obsessão pelo poder e a ganância pelo dinheiro, como temos observado até hoje. Este Escritor deixa-nos perplexos com a análise que faz da Humanidade. A previsão que faz do Futuro é assustadora. O facto de ser Professor de História dá-lhe argumentos plausíveis.

Numa entrevista recente Yuval Harari afirma: “Computadores altamente inteligentes poderão expulsar milhares de milhões de pessoas do mercado de trabalho, criando uma imensa “classe inútil”. Ao mesmo tempo, poderão tornar possível a criação de ditaduras digitais. No século XX, a democracia derrotou a ditadura, porque a democracia é mais eficaz a processar informação e a tomar decisões. O conflito entre a democracia e a ditadura não é apenas um conflito entre diferentes sistemas éticos, mas entre diferentes métodos de processar informação e tomar decisões. A democracia distribui informação e o poder de tomar decisões entre muitas pessoas e instituições, enquanto as ditaduras concentram a informação e o poder num lugar. Dada a tecnologia existente no século XX, era pouco eficaz concentrar informação e poder num único lugar. Ninguém tinha a capacidade de processar toda a informação com a rapidez suficiente e de tomar as decisões certas.”in Jornal ‘Público’ em 24 de Agosto de 2018 (https://www.publico.pt/2018/08/24/culturaipsilon/entrevista/yuval-noah-harariso-se-percebermos-o-que-nos-faz-humanos-poderemos-continuar-a-ser-humanos-1841497).

Automação

No entanto, este argumento da imensa classe inútil tem muitos aspetos inaceitáveis. É sobre esta possibilidade que vou desenvolver os meus argumentos.

Você aceitaria passivamente essa classificação, e, que lhe oferecessem dinheiro para não fazer nada?

A ser afirmativa essa resposta significaria várias coisas:

  • Que você não teria competências suficientes para uma profissão no futuro;
  • Que você aceitaria o ócio como forma de vida;
  • Que você não seria suficientemente inteligente para se dedicar a outras matérias do seu interesse e ‘sonho’;
  • Que você estaria disponível para ser escravo do sistema que criou a sua condição de INÚTIL.

Sinceramente, não acredito que sejamos tão passivos, tão indiferentes e tão pouco inteligentes, que nada fizéssemos para derrubar o sistema que desenvolvesse esse processo.

Reconheço que a Humanidade é um conceito que o Homem criou e tudo deve fazer por o merecer, mas só o Ser Humano com Valor a pode representar.

Por outro lado, existem tantas questões sociais carentes de intervenção, que a empatia natural dos Seres Humanos se encarregaria de transformar em atividade solidária e intervenções sociais dignas, para melhorar significativamente a condição Humana.

A História já nos demonstrou que o Homem não aceita pacificamente a condição de ‘escravo’ ou de ‘inútil’.

Nós somos seres criativos por natureza e a inteligência só tem tendência para melhorar e aumentar, com as devidas condições educacionais. A criatividade e a inteligência Humana são fenómenos irreversíveis e inalienáveis. Essa é uma das razões porque venho defendendo o meu sistema de uma Sociedade Global de Valor Humano, ao ponto de o querer transformar num Paradigma para o Futuro da Sociedade.

Outra razão prende-se com o facto de os Valores Humanos já se encontrarem suficientemente difundidos pela Sociedade, para que esta nada fizesse para alterar esse estado de coisas indignas de Seres Humanos.

Mesmo em condição ditatorial a tendência seria que esta não se aguentasse muito tempo, sem que a Liberdade responsável, associada à Inteligência Coletiva, tomasse as devidas medidas de intervenção.

Temos todas as razões e mais algumas para desenvolver a Democracia e a tornar suficientemente ágil e interventora, para não permitir uma situação dessa natureza – transformar Pessoas em inúteis.

Eu compreendo que o mundo Empresarial e Corporativo se encontra numa tendência de querer conhecer os anseios, as emoções, os impulsos, os gostos e as personalidades de todos os potenciais consumidores com as ferramentas do Neuromarketing. E, mais grave que isso, que as Pessoas têm sido demasiado passivas e permissivas no desenvolvimento de tais metodologias. Mas considero que a nossa inteligência será bem mais flexível e arguta, para não se deixar ‘dominar’ nem manipular, ao ponto de tomarem conta da nossa consciência e capacidade de ação, individual e coletiva.

Este Mundo Global tem tantos e tão graves problemas por resolver que o mais provável será o processo descambar para outras tendências. Problemas nos sistemas Educacionais, Sociais, de Saúde, de Justiça e desenvolvimento Humano, são tão graves e tão carentes de melhores soluções, que acabarão por se sobrepor a qualquer tentativa de manipulação.

As nossas atitudes e comportamentos como Seres das novas Sociedades, sempre determinarão os caminhos do Futuro. Se nada fizermos para melhorar os sistemas de Ensino e de Escolaridade, por esse mundo fora, então será mais garantido que estaremos mais propensos a ser manipulados Política, Económica e Financeiramente. Sem Valores Humanos e sem uma Educação de qualidade estaremos vulneráveis a todos os ‘lobos’ e ‘animais selvagens’ que nos queiram ‘comer por parvos’ e manter medrosos do que aí virá.

Inteligência e Consciência Coletivas são duas dimensões Humanas que poderão, seguramente, contribuir para o nosso Futuro Coletivo mais saudável e criativo, em Liberdade e em Paz.

Tenho confiança nos Seres Humanos e no Futuro Coletivo que possam desenvolver, mas temos de ser mais interventores, mais inteligentes e ter uma consciência coletiva com Valores Humanos, para que a Democracia possa ter a dimensão que há tantos séculos o Homem ambiciona.

Valorizemo-nos TODOS e apetrechemo-nos com as ‘ferramentas’ tecnológicas e mentais estritamente necessárias para o nosso desenvolvimento como Seres Humanos de Valor a nível Global.

Não se deixem manipular nem ‘dominar’ por conceitos conducentes a Ditaduras, ou sistemas totalitários, porque esses não representarão o verdadeiro Ser Humano de Valor no Futuro.

Alfredo Sá Almeida                                                                           29 de Agosto de 2018

Será neste século que o Homem se transformará em Ser Humano?

Educação - Immanuel Kant

Quando falo na transformação do Homem em Ser Humano admito a existência de um ganho significativo de caráter Humanista, de Valor Humano e de respeito efetivo pela Biosfera e as alterações climáticas.

Vem isto a propósito de uma entrevista muito interessante dada for Yuval Noah Harari ao Jornal “Público” (https://www.publico.pt/2018/08/24/culturaipsilon/entrevista/yuval-noah-harariso-se-percebermos-o-que-nos-faz-humanos-poderemos-continuar-a-ser-humanos-1841497), intitulada “Só se percebermos o que nos faz humanos poderemos continuar a ser humanos”. Esta entrevista precede a publicação de mais um livro – também em Portugal (provavelmente, outro best-seller) – deste Autor: “21 Lições para o Século XXI” (2018).

A matéria que acrescenta nesta nova obra vem na sequência dos seus livros Sapiens — História Breve da Humanidade” (2014) e Homo Deus — História Breve do Futuro” (2017).

Estamos perante um desafio com a dimensão da Humanidade e do que de BOM o Ser Humano foi capaz de construir e desenvolver. No entanto, arrastamos o ‘peso’ dos erros cometidos de geração em geração até ao presente.

A vantagem que temos é o facto de o Futuro ainda ser um ‘Livro’ entreaberto que nos permitirá corrigir muitos desses erros e transformarmos a Sociedade atual, noutra mais Humanista. Isto se quisermos SER Humanos com Valor.

É triste verificarmos que desde a época de Immanuel Kant (1724-1804), o Homem pouco realizou em matéria de ensino e Educação que nos permitisse transformarmo-nos em Seres Humanos. Transformámo-nos em Seres tecnologicamente avançados (sobretudo no domínio bélico) mas Humanamente muito pobres.

Felizmente que existiram e existem algumas mentes brilhantes e iluminadas que nos ajudaram e ajudam a esclarecer e a abrir o nosso ‘mundo’, assim como, a diminuir o ‘peso’ na nossa consciência.

Yuval Harari é uma dessas mentes brilhantes que nos desperta para a dimensão do Ser Humano e da sua importância no Futuro. Algo que tento fazer desde 2012 sem muito sucesso. No entanto, considero que há muito trabalho a ser feito por TODOS para conseguirmos atingir patamares de Humanidade superiores.

Considero que os argumentos que este Autor apresenta, estão em linha com o que tenho vindo a escrever, e são muito importantes para a causa da Humanidade. Deste modo, vou apresentar excertos da sua entrevista com os quais concordo plenamente e que deverão ser objeto de muita reflexão e interiorização por TODOS nós. A Consciência Coletiva é uma dimensão importante a atingir.

  • “Nesta entrevista resume algumas das suas principais ideias e volta a deixar alertas: os computadores “altamente inteligentes poderão expulsar milhares de milhões de pessoas do mercado de trabalho, criando uma imensa ‘classe inútil’” e poderão “tornar possível a criação de ditaduras digitais”; o poder pode passar para as mãos de uma “pequena elite”; “estamos a entrar na era em que vai ser possível piratear humanos”. E um conselho: temos de nos conhecer melhor a nós próprios.”
  • “O judaísmo tem apenas 3000 anos, o cristianismo tem cerca de 2000 e ambos sofreram alterações profundas nos últimos séculos. O judaísmo e o cristianismo de hoje são muito diferentes do que eram há 2000 anos. Não são verdades eternas, são criações humanas. – Yuval Harari.
  • É particularmente importante lembrarmo-nos disso hoje, porque no início do século XXI há demasiados políticos empenhados em vender-nos fantasias nostálgicas sobre o passado, em vez de nos prepararem para o futuro.” – Yuval Harari.
  • “Infelizmente, fantasias nostálgicas como o nacionalismo e a religião não resolvem os grandes problemas do século XXI. Como é que vamos lidar com as mudanças climáticas? O que faremos quando a inteligência artificial empurrar milhões de pessoas para fora do mercado de trabalho? Como é que iremos usar o imenso novo poder na engenharia genética?” – Yuval Harari.
  • “Sim, os humanos pensam mais em grupo do que individualmente. Cerca de 99% das ideias que moldam a nossa visão do mundo foram criadas por outras pessoas. Além disso, os três grandes problemas que a humanidade enfrenta hoje são, na sua natureza, globais; por isso, só podemos lidar com eles através da cooperação global. Os indivíduos não os podem resolver, e nem sequer nações inteiras os podem resolver. Só a humanidade como um todo o pode fazer. Os três problemas a que me refiro são a guerra nuclear, as mudanças climáticas e a desestruturação tecnológica. O governo de Portugal não pode proteger Portugal da guerra nuclear ou do aquecimento global, a menos que coopere de forma eficaz com os governos da Alemanha, China, Brasil e vários outros países.” – Yuval Harari.
  • “A inteligência artificial poderá nunca vir a desenvolver consciência. Muitas pessoas tendem a confundir inteligência com consciência e a assumir que para estar ao mesmo nível de inteligência dos humanos os computadores terão de desenvolver consciência. Mas, na realidade, os computadores podem ultrapassar os humanos sem nunca ganharem consciência, porque a consciência e a inteligência são duas coisas diferentes. – Yuval Harari.
  • “O verdadeiro perigo da inteligência artificial não é que robots com consciência se revoltem contra a humanidade. O verdadeiro perigo é que a inteligência artificial dê poder a uma pequena elite humana enquanto retira poder e oprime a maior parte da humanidade. – Yuval Harari.
  • “No século XX, a democracia derrotou a ditadura, porque a democracia é mais eficaz a processar informação e a tomar decisões. O conflito entre a democracia e a ditadura não é apenas um conflito entre diferentes sistemas éticos, mas entre diferentes métodos de processar informação e tomar decisões. A democracia distribui informação e o poder de tomar decisões entre muitas pessoas e instituições, enquanto as ditaduras concentram a informação e o poder num lugar.” – Yuval Harari.
  • “Não nos conhecemos suficientemente bem e temos menos controlo do que pensamos sobre o que sentimos. Diz que “não estamos a fazer grande coisa para investigar e desenvolver a consciência humana” e que o livre-arbítrio é uma ilusão. Porque é que acha que desenvolvemos tão pouco o nosso potencial de inteligência? Como podemos conhecermo-nos melhor? E não servirá isso sobretudo para construirmos algoritmos mais perfeitos?” – Yuval Harari.
  • “Estamos a investigar e a desenvolver as capacidades humanas sobretudo tendo em conta as necessidades imediatas do sistema económico e político e não as nossas necessidades de longo prazo enquanto seres humanos. O meu patrão quer que eu responda a e-mails tão rapidamente quanto possível, mas está pouco interessado na minha capacidade para provar e apreciar a comida que estou a comer. Consequentemente, eu verifico os meus e-mails mesmo durante as refeições, enquanto perco a capacidade de prestar atenção às minhas próprias sensações. O sistema económico pressiona-me para expandir e diversificar o meu portfólio de investimento, mas dá-me zero incentivos para expandir e diversificar a minha compaixão.” – Yuval Harari.
  • “Aquilo em que nos devíamos focar, acima de tudo, era conhecermo-nos a nós próprios. Quem somos nós? Qual é o nosso verdadeiro potencial? Desde os tempos antigos que os sábios e os santos aconselham repetidamente as pessoas a “conhecerem-se a elas próprias”. E, no entanto, na época de Sócrates, Buda e Confúcio, não havia uma verdadeira concorrência. Se não nos empenhássemos em conhecermo-nos a nós próprios, continuávamos a ser uma caixa negra para o resto da humanidade. Hoje, pelo contrário, temos competição. Enquanto lê estas linhas, a Amazon, o Facebook, os serviços secretos russos e o Partido Comunista Chinês estão todos a tentar piratear-nos. – Yuval Harari.
  • “No futuro, combinando o nosso crescente conhecimento de biologia com a inteligência artificial, sistemas externos poderão conhecê-la melhor do que você se conhece a si mesma. E poderão controlar e manipular as pessoas com uma eficácia sem precedentes.” – Yuval Harari.
  • “Para salvar o sistema democrático, precisamos de conhecer as nossas fraquezas, os nossos medos e os nossos ódios e não permitir que eles se tornem uma arma na mão de trolls. Há muitas formas de nos conhecermos melhor. Eu pessoalmente pratico meditação Vipassana (https:/www.pt.dhamma.org/pt/) que se baseia na ideia de que o fluxo de pensamento está intimamente ligado às sensações do corpo.” – Yuval Harari.
  • “O que precisamos de perceber é que a mudança do mundo está a acelerar-se. Ninguém sabe como é que o mundo ou o mercado de trabalho vão ser em 2050, exceto que serão muito diferentes do que são hoje e estarão num fluxo constante.

Tradicionalmente, a vida dividia-se em duas partes principais: um período de aprendizagem seguido por um período de trabalho. Na primeira parte da vida, construímos uma identidade estável e adquirimos competências pessoais e profissionais; na segunda parte, apoiamo-nos na nossa identidade existente e nas nossas competências para navegar pelo mundo, ganhar a vida e contribuir para a sociedade. Em 2050, este modelo tradicional estará obsoleto e a única forma de os humanos se manterem relevantes será continuando a aprender ao longo das suas vidas, reinventando-se uma e outra vez.” – Yuval Harari.

  • “Não há uma linha clara que separe o emocional e o racional. As nossas emoções incorporam uma lógica evolutiva. As decisões mais importantes que tomamos na vida — onde viver, o que estudar, com quem casar — dependem dos nossos sentimentos mais do que de frios cálculos matemáticos. Consequentemente, para nos conhecermos melhor, temos de ter um conhecimento mais profundo das nossas emoções.” – Yuval Harari.
  • “Em eras anteriores, ninguém tinha um bom conhecimento do cérebro humano, ninguém conseguia reunir uma grande quantidade de dados sobre cada indivíduo e ninguém tinha a necessária capacidade informática para analisar tantos dados. Mas, em breve, os governos e as grandes empresas terão estas três coisas. E aí conseguirão manipular-nos com uma eficácia sem precedentes. Pessoas que acreditam que nunca serão manipuladas, porque as suas emoções manifestam um misterioso “livre arbítrio”, são as mais fáceis de manipular. Para resistir a estas manipulações temos de conhecer muito bem os nossos sentimentos, mas também temos de nos lembrar de que o que sentimos não é necessariamente a verdade.” – Yuval Harari.

Em minha opinião, os argumentos apresentados são de uma importância enorme para a construção da nossa Inteligência e Consciência Coletivas e podermos, como pretende o Autor, conhecermo-nos melhor individual e coletivamente.

Recomendo uma leitura atenta de toda a entrevista.

Alfredo Sá Almeida                                                                                  26 de Agosto de 2018